quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

ERNESTO GARDENAL



















Ernesto Gardenal

Poeta nicaragüense


"Ao perder a ti, tu e eu perdemos.
Eu porque tu eras o que eu mais amava
E tu, porque eu era o que te amava mais.
Contudo, de nós dois, tu perdestes mais do que eu.
Porque eu poderei amar a outra como amava a ti,
Mas a ti não te amarão como te amava eu."

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

INSTANTES ATRÁS


















INSTANTES ATRÁS


Agora que se estar só
onde há muito
rezei a Ave-Maria
de pura calmaria
quando ora a nostalgia
maltrata, machuca
de fazer e causar dó.

O filho e amigo se foi
e tudo ficou pra depois
os bate-papos e piadas
as ruidosas gargalhadas
as histórias passadas
que dizíamos na calçada
no caminho da praia
no comércio agitado
nos burburinhos da rua
quando quase éramos
pelos carros atropelados.

Ríamos do passado cru
quando dele exigia muito
que deixasse a molecagem
que botasse o carro na garagem
enfim, que o mais breve
deixasse de ser mero angu
e se tornasse adulto, gente
que a vida era coisa séria,
que fosse como seu pai
e não dissesse um ai
por causa de simples espinho
encravado na sola dos pés.

Que dor não era aquilo
que muito ainda havia pra doer
quando começasse a crescer
e deixasse de ser um esquilo
pois não podíamos só viver
pulando de galho em galho
e que um dia iria conhecer
uma mulher como companheira
que poderia ser vivaz, alegre
ou muda como um canário
na fase de troca das penas
não um simples espantalho.


(Robério Matos)



terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

SAMARA THAYS



SAMARA THAYS


Se alguém amara a Samara
como um dia eu a amei
desculpa amigo, pois teu amor
fora sufocado pelo meu.

Amaras durante teus sonhos
eu, na vigília, em todas as horas
de todos os dias, desde o alvorecer
até o último badalar dos sinos
eu cantava seu nome nos hinos
e nunca a fizera magoar-se, sofrer.

Samara, leia e guarde para si
esses singelos versos pois um dia,
tomara! O leremos juntos
ao pé de um junco frondoso
quando demonstrarei, ardoroso
todo o encanto que nutro por ti.


(Robério Matos)



A VOZ DO MEU CORAÇÃO



A VOZ DO MEU CORAÇÃO


Disse-me o meu coração:
não me envies outros amores.
Já não mais sou tão jovem.

O que há em mim já me basta,
dispara e palpita-me as artérias,
que, cansadas e menos flexíveis,
enrijecem-se com poucos afagos.

Apenas e tão-somente ordena
que ele seja tenro e suave
e nunca diga “boa noite”.

Que toda hora seja dia claro.
Que nunca, jamais, escureça...
Tenho medo de me perder de ti.


(Robério Matos)



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

SOBRAS E FALTAS



















SOBRAS E FALTAS


Se há um tempo bom
de não se esquecer
é aquele que ainda
não se viveu.

Se há uma vida
que se deve amar pra sempre
é aquela que se espera
acontecer...

Se há qualquer coisa
que dela se sente ausência
é a que ainda não se vivenciou.

Se não existe falta
é porque a abundância
sempre abarrotou o ser

mas se essa sobra
é porque falta amor.


(Robério Matos)


sábado, 1 de fevereiro de 2014

A RESPOSTA DO SILÊNCIO





















A RESPOSTA DO SILÊNCIO


O silêncio traz dor, grito, resposta.
A mais dura, duradoura e cruel resposta
é a do silêncio, tu o sabes.

Se quiseres gritar com alguém,
cala-te! Ele te ouvirá.

Não inaudível, mas em alto e bom som!

Em silêncio, disseste que tens alguma admiração por mim.

Em silêncio, respondi que aprendi a te amar...

O falar, sem ouvir, sem pausar,
confunde e ameaça.

O dizer, tresloucadamente e em demasia, não fala.

Aborrece, troca a empatia pela antipatia.

Fala-se o que não se queria dizer.
Diz-se o que o outro queria ouvir, para poder responder...

Faz chorar. Nunca sorrir...



(Robério Matos)