sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

QUASE TE SUFOQUEI DE AMOR


















QUASE TE SUFOQUEI DE AMOR


Durante o dia
eu respirava
e me alimentava de ti.

Dentro do apartamento
a toda hora tropeçava
e esbarrava no teu corpo.

Ouvia tua voz a procurar-me
e a clamar por mim
tuas mãos sobre meus ombros
e teus braços envoltos
no meu pescoço.

Abraçava-te sentada no meu colo
e cingia tua cintura macia
enquanto as mãos teimavam
em seguir por outros caminhos...

Escrevi-te poesias e cartas d’amor
Fiz-te versos em guardanapos
e até sem o saber cantava para ti.

Tal uma prece
antes de dormir
falava-te baixinho e te via
em um breve e delicioso sorrir,
até que exausta e carinhosamente
te desvencilhavas dos meus braços
e para o meu lado da cama
gentilmente mandavas-me ir.

Pela manhã, ao acordar
tudo lembrava, mas como em sonhos
e era quando eu te machucava
ao abraçar-te forte para ter a certeza
que ainda estavas comigo, aqui.



(Robério Matos)



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

FALAR POR FALAR















FALAR POR FALAR


Não sei dizer o que não posso confirmar
não posso falar pelo meu coração
se ele insiste no seu silêncio, na sua mudez
e nada tem para me dizer ou comentar.

Falo o que sinto e ora não há sentimento
digno de se expressar. Simplesmente não há
fato novo e que justifique se querer contar.

Poderia falar do passado ou especular o futuro.
dizer da saudade que minh’alma se lamenta
ou da melancolia pela qual ora padeço e choro.
Porém o passado já passou e o futuro nem sei se virá.
Então resta o presente sobre o qual não sei falar...

(Robério Matos)

O SANTO QUE CAIU DO ALTAR
















O SANTO QUE CAIU DO ALTAR
(uma história real)
LEIAM! É um pouco longa, pros nossos padrões, mas muito interessante!)
  
by Robério Matos
  
Nos anos sessenta, morávamos eu e o Chico, meu primo, em Juazeiro do Norte-CE, cidade-santuário, onde maioria absoluta dos cidadãos é de origem católica e devota do Padre Cícero Romão Batista. Na época, tínhamos entre 10 e 12 anos de idade, respectivamente.

Nossos pais eram de origem muito humilde, por isso, de quando em vez, íamos passar o dia na casa de nossos avós, os quais tinham uma condição financeira melhor que a nossa, pois vovô Astrogildo era o Coletor da Cidade (tipo um Tabelião do único cartório existente no município).

Então, quando a coisa não estava muito boa em nossas casas, íamos pegar o 0800 (almoço) na casa da vó Mãezinha, como a tratávamos carinhosamente, daí às vezes ficávamos para o jantar e também dormíamos lá.

Vovó era talvez a mais católica de todos os habitantes da cidade e devota fervorosa do “Padim Pádi Ciço”, além de outro punhado de santos, cujas réplicas, de barro, ela mantinha em uma espécie de santuário, feito de madeira e preso à parede da sala de jantar.

Certo dia eu e o Chico pegamos Mãezinha ajeitando um lugarzinho para um santo novo, no já muito apertado e congestionado altar.
- Vó, esse é novo? – perguntei.
- É sim, meu filho.
- E o que ele faz (de milagre, ironizei)?
- Robério, lá onde eu comprei, o Seu Damião me garantiu que esse é o santo dos apertados.
Ele dá dinheiro, meu filho!

Olhei pro Chico. Ele também me fitou meio que de lado, e ficamos entre um misto de animados e desconfiados, ante a perspectiva do novo santo poder quebrar nosso galho, para irmos ao campo de futebol, cinemas, etc.

- E, vó, como que ele faz isso? É assim “na lata” mesmo? Ele mete a mão no bolso e dá o dinheiro?
- Não, menino. A gente coloca de baixo dele uma nota de 1 cruzeiro novo, por exemplo, faz a reza, e, no dia seguinte, pela manhã, logo cedo, vai lá e encontra 2 cruzeiros novos, e assim sucessivamente.
- Ah, tá... Respondemos quase em uníssono, eu e o Chico.
- Então vó – voltei a perturbar – isso já não é milagre. Tá mais pra jogo-do-bicho, só com uma grande desvantagem, pois esse paga 15 vezes mais o valor da aposta, enquanto que o sovina do santo, só uma vez mais...

Foi aquele “puxão de orelha”, seguido de um sermão. Só que você tá esquecendo de um detalhe importante Robério, seu sabichão: o santo dá pouco mas é certo. É toma-lá-dá-cá, né?

- Vó, interveio o Chico, vamos deixar de conversa e por a “experiência” (apelou, o primo) em prática. Isso ele falou já por volta das 18h. Hora da Ave-Maria.
Então Mãezinha não se fez de rogada. Pegou uma nota de 1 cruzeiro novo, fez a reza e colocou a bufunfa de baixo do santo.

Alta madrugada, eu e o Chico, descemos de nossas redes e, pé-ante-pé, fomos lá no santuário e colocamos mais um cruzeiro novo de baixo do santo e voltamos para nossas redes de dormir.

Pela manhã, hora do café, lá vem Mãezinha, radiante e jocosamente mostrando para nós as duas notas de um cruzeiro novo, cada.

E assim se seguiu por alguns dias. Ela colocava 2, nós cobríamos com 4. Botava 5, nós dez!

Mas veio um dia que a ganância suplantou a fé da nossa devota vó Mãezinha: ela colocou 50 pratas de baixo do santo. Certamente “tomara emprestado” do marido, nosso vô.

E agora, Chico? D’onde que nós vamos arranjar 100 paus!

- Que nada, primo. Nós desta vez não vamos cobrir a parada. Vamos “passar”, como se diz nos jogos de azar.

Madrugada. Fomos lá, como de costume, no santuário e tiramos os 50 mangos do santo, e, ofegantes, voltamos para nossas redes, com um detalhe, que pois um bom termo em nossa fonte de renda: o nervoso, somado à pressa e ansiedade, fez com que derrubássemos o santo do altar, fazendo o danado – com todo o respeito - se estatelar no chão.

Dia seguinte, bem cedo, Mãezinha dana-se a sacudir nossas redes: Robério... Chico... Venham cá, depressa!

(e aqui resumimos o final da história).

- Como vocês me explicam isso? Além dos 50 cruzeiros novos haverem sumido “misteriosamente”, meu santim caiu do altar, e vejam aqui!

Quase não contivemos o riso ao vermos o busto do santo em uma das mãos da vó, e a cabeça do dito “cambista” na outra...

- Sei não, vó! Cuidei em tentar contornar (e só piorei mais ainda) aquela vexatória situação.

Vai ver que ele, duro, viu que não tinha como cobrir “uma aposta” tão alta e, envergonhado, saltou do Santuário, cometendo suicídio...

domingo, 9 de fevereiro de 2014

NUVENS VIAJORAS
















NUVENS VIAJORAS


Nuvens que viajam preguiçosamente
ao sopro de um vento gélido, lento
que formam figuras indefinidas, brancas
e fazem sombras sobre a terra, o mar
que agitam as águas espumantes
ante o alto teor do sal, das salinas.

Que formam vagas ferozes, enfurecidas
e agitam embarcações frágeis e pequenas
e causam rebuliços e alvoroços na água
agora crespa, agitada, em um pedaço de mar
antes translúcido e de tom azul como o anil.

Nuvens antes alvas, tal o capucho do algodão
ora são nimbos cinzentos e ameaçadores
que impingem apreensões, alvoroço e medo
aos pequenos pescadores que se desdobram
para manterem seus barcos sob controle.

Que se aquietam de repente com a perda
da força e velocidade do vento ora brando
após ouvirem a melodia de vozes de orações
em uníssono e que partem dos sinceros
e fervorosos corações dos que sobre
os barcos frágeis estão, com as mãos em concha
e a fonte erguida para os céus, em fervorosa
e confiante prece aos santos do mar,
das falanges espirituais de Jesus e Maria.

E o mar se acalmou, transformando-se em leve
e refrescante brisa restauradora da esperança e fé.



(Robério Matos)


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

TANIA AIRES, A LUA E A VARANDA





















TANIA AIRES, A LUA E A VARANDA


É noite. Já é tarde e a lua, cheia
parece desfilar, majestosa
refletindo para a terra a luz do sol
ladeada por milhares de estrelas
cintilantes tal um desfile cósmico.

Deixo-te na varanda do quarto a
admirar essa passarela de astros
como a expor a mais recente coleção
de constelações esfuziantes e belas.

Visto meu pijama, deito-me na cama
a esperar que o caprichoso sono
mostre a sua cara e me faça adormecer.

Não demora e ouço tuas passadas
suaves como a flutuarem sobre o tapete.
Sinto a doçura e suavidade do teu perfume
que me fazem embriagar de súbita paixão.

Da varanda sinto uma corrente de ar
a adentrar a nossa alcova, refrigerando-a.
Percebo, então, que a cama se afunda
na lateral sob a pressão do teu joelho nu,
de mansinho, temendo acordar-me.

De repente, já estás sob meus lençóis.
Teu corpo nu, morno, macio e hesitante
se aproxima e funde-se ao meu e agora
somos apenas um, tu sobre mim, ora
eu sobre tu a escorregarmos sobre nós
a deslizarmo-nos como em um tobogã.

Encostas teus lábios em meu ouvido
a sussurrar-me palavras impudicas,
sem pudor enquanto meu falo,
apaixonado e balbuciante busca teu regaço,
ora úmido e mendicante.

E fazemos o mais insano e alucinado amor!



(Robério Matos)


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

DEIXE QUE EU SEJA EU!





















DEIXE QUE EU SEJA EU!


O mundo já foi mais alegre
nas valsas e nos boleros
dos salões dos clubes
nos lugares onde havia gente
feliz assim como eu.

É, já fui menos triste
mais feliz porque havia
gente a minha volta

Porque dava boa tarde
e também bom dia e ninguém
chorava ou sorria
quando se voltava ou se ia...

E houve um dia assim,
há muitos anos,
quinem gosto de lembrar...



(Robério Matos)